O Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres é uma das mais belas expressões da devoção açoriana ao Ecce Homo venerado em Ponta Delgada. Entoado solenemente nas festividades anuais, este cântico carrega séculos de fé, tradição e identidade do povo micaelense. Conheça a sua origem, autoria, letra e a história do escritor José da Costa, que dotou os Açores deste tesouro espiritual.
A autoria do Hino: José da Costa, poeta e latinista
O texto do Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres é da autoria do escritor, poeta e professor José de Sousa da Costa (1882-1963), nascido em Ponta Garça, ouvidoria de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel.
Após a instrução primária, ingressou no Seminário de Angra, onde permaneceu cerca de três anos. Por motivos pessoais, regressou à terra natal e frequentou o Colégio Sena Freitas, em Ponta Delgada, onde completou toda a sua formação Académica e o Magistério Primário. Exerceu funções de docente em diversas localidades da área de Ponta Delgada, nomeadamente Relva, Livramento e São Roque, tendo sido também diretor da Escola Ernesto do Canto.
Um intelectual micaelense de referência
Poeta e latinista de formação clássica, José da Costa fundou e dirigiu a revista angrense Arquipélago, surgida em 1931. Foi um dos intelectuais micaelenses mais eruditos do seu tempo, tendo venerado a língua pátria e o latim, ensinando-os aos estudantes liceais que o procuravam para explicações.
Traduziu para português composições poéticas e hinos latinos, como o Stabat Mater, de Jacopone da Todi, e alguns originais de São Bernardo. Foi colaborador periódico da imprensa regional açoriana, tendo deixado um número considerável de textos dispersos.
Pintor miniaturista e heraldista
No plano humano, José da Costa foi uma personagem culta, dotado também no campo das artes plásticas. Pintor miniaturista na reconstituição de imagens, desenhou inúmeros motivos heráldicos dos Açores, bem como brasões de famílias nobres e ilustres da ilha de São Miguel e do arquipélago.
Compôs hinos devotos com música, colocados à apreciação do músico violinista Manuel Macedo, entre outros, e do maestro Pe. Tomaz Borba. Cultivou ainda a poesia humorística, cujo exemplo está no poema heroico-cómico Saltapíada ou a Casula Negra (1949), além do ensaio e do teatro.
A música do Hino: Manuel José Candeias
O Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres, tal como hoje o conhecemos, foi composto musicalmente pelo músico Manuel José Candeias, que dotou a poesia de José da Costa de uma melodia solene e profundamente devocional.
Letra do Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres (atual)
Glória a Cristo, Jesus, glória eterna, Nosso Rei, nossa firme esperança, Soberano que os mundos governa E as nações recebem por herança. ♫ Com o manto e o ceptro irrisório, Sois de espinhos cruéis coroado, Rei da dor, uma vez, no Pretório, Rei de amor, para sempre adorado. ♫ Combatendo, por vossa Bandeira Que, no peito, trazemos erguida, Alcançamos a paz verdadeira E a vitória nas lutas da vida. ♫ Só a vós, com inteira obediência Serviremos com firme vontade, Porque em Vós há justiça e clemência Porque em Vós resplandece a verdade. ♫ Concedei-nos, por graça divina, Que sejamos um povo de eleitos, Firmes crentes na Vossa doutrina, Cumpridores dos Vossos preceitos.
O Hino Antigo (1944)
Antes da versão atual, era entoada uma versão original do hino, datada de Angra, 1 de maio de 1944. Apresentamos abaixo a sua letra integral, como testemunho histórico da devoção açoriana ao Senhor Santo Cristo.
I
Santo Cristo! Esperança Divina, Horizonte de Eterna Vitória. Quero a vida na Vossa Doutrina E na morte o Reino da Glória. Santo Cristo, Ó! Estrela Brilhante, Ó! Farol que guiais ao abrigo; A minh'alma navega errante, Glória a Cristo na hora do perigo.
Coro
Glória a Cristo no céu e na Terra, Glória a Cristo no Vinho e no Pão, Glória a Cristo no Mar e na Serra, Glória a Cristo no meu coração.
II
Santo Cristo! Essa Chama Celeste, Que irradia do Vosso Olhar, É a Paz que ao Mundo trouxeste, E o Mundo recusa aceitar. Santo Cristo! Esperança Bendita! Do Cristão que Vos ama e adora, A minh'alma vagueia aflita Glória a Cristo na última hora.
Coro
Glória a Cristo no céu e na Terra, Glória a Cristo no Vinho e no Pão, Glória a Cristo no Mar e na Serra, Glória a Cristo no meu coração.
Angra, 1 de maio de 1944
Curiosidade: a versão de João Vieira Jerónimo
Importa referir que existe também uma versão do Hino, datada de abril de 1970, com letra atribuída a João Vieira Jerónimo, então regente da Capela da Igreja da Fajã de Cima, na ilha de São Miguel. Esta versão mantém o essencial da estrutura poética e do sentido devocional, sendo igualmente associada às festividades do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
A Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres
O Hino é entoado anualmente na Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que se realiza em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, ininterruptamente desde 1700. Considerada a maior procissão da Europa e a segunda maior do Mundo, esta tricentenária celebração reúne milhares de devotos, açorianos da diáspora e peregrinos vindos de todo o mundo.
A adesão dos fiéis tem sido sempre crescente e constante, renovada de ano para ano e transversal a tantas gerações de açorianos, fazendo desta festa um dos mais importantes momentos religiosos, culturais e identitários do arquipélago.
Mais do que um cântico litúrgico, o Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres é um símbolo vivo da fé açoriana, um elo entre gerações e uma manifestação artística que une poesia, música e devoção. A obra de José da Costa, musicada por Manuel José Candeias, continua a ecoar nas ruas de Ponta Delgada e nos corações de quem, por todo o mundo, mantém viva a devoção ao Ecce Homo dos Açores.
Fonte: Trabalho de investigação de José Manuel Graça Teixeira Gaipo, gentilmente cedido ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Informações biográficas verbalizadas pela filha do autor, Maria Angelina Vieira Costa Schandler, em entrevista de 11 de maio de 2016.